terça-feira, outubro 26, 2004

Beleza?

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro


3 comentários:

frog disse...

Este poema do Alberto Caeiro é um pouco cruel, apesar de realista. Mas é assim toda a sua obra. Porém eu acho que a beleza é um conceito abstracto... a beleza, está nos olhos e sensibilidade de cada um de nós.

beijinhos

O Micróbio disse...

O Caeiro sabia... ele não quis foi dizer. Todas as coisas têm a sua beleza...

chemistry disse...

A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão, é isso exactamente, a beleza.