A calma da tarde parecia queimar nossos corpos. Uma tarde de agosto, daquelas tardes de sol de figos e uvas e amoras e searas..
Dentro de casa o velho cão estava sorumbático…
...depois ficou impaciente. Um cão sem vida “social” é um cão só…não obstante os mimos dos donos.
Fiz-me ao fogão e, num instante, arranjei uma merenda: batatas albardadas, rojões, carne assada no forno e, depois, fatiada; houve ainda tempo para fazer um bolo e uma pizza (receita minha). Havia melão, uvas e maçãs. Água e um sumo natural. Ah e pão! Enfiei tudo na cesta e numa outra, uma manta onde pudéssemos sentar-nos.
A tarde começava a refrescar quando nos metemos no carro que ainda abafava. Os meus cabelos compridos e louros caiam pelo colo mas tive de os prender com um gancho para não me fazerem transpirar ainda mais.
Sem uma rota, sem um destino…deixámo-nos levar pela estrada, quase sem movimento.
Viu-se então um largo e, no centro…uma pequena capela rodeada de imensas árvores. A sombra acolheu-nos com uma brisa leve e pura plena de cheiro a pinhais e a esperança.
Olhei disfarçadamente meu marido e vi que estava feliz. Então fiquei feliz. Naquela tarde de agosto o calor já não fazia doer. E quando estendi a toalha e nela coloquei toda a merenda eu era a mulher mais feliz do mundo.
A pequena capela …as árvores, o odor quente a campo…tudo estava em harmonia.
Levantei os olhos e o céu azul lá estava como que a querer abraçar-nos, unir-nos ainda mais. Uma união que não se consegue com os simples votos feitos frente a um Padre mas sim uma união plena, inteira…sem palavras pronunciadas…apenas com um estar, um olhar, um entender em silêncio cúmplice cortado, apenas, pelos movimentos dos pássaros agitados ainda do calor do dia.
Sentámo-nos para saborear a merenda …mas nesse momento eu soube…que connosco se havia sentado também o Medo. Um medo real…a iminência de um telefonema do IPO, médicos e seus diagnósticos, os elevadores com cheiro a medicamentos, os corredores vazios de sentido mas cheios de gente de expressão apagada. E senti uma dor terrível que me prendeu ao chão e me fez deixar escapar uma lágrima.
- “Não; este fim-de-tarde é nosso, apenas nosso!” – pensei, num misto de dor e raiva!
Olhei o meu marido mas não lhe vi o olhar: tinha os olhos cravados no chão. Adivinhei os seus pensamentos tal como ele adivinhara já os meus. Até o velho cão parecia cansado….mais velho ainda.
Senti que as mãos me tremiam e olhei, de novo o céu, numa prece muda…uma prece na qual entreguei todo o meu ser, toda a minha Fé…como se toda a minha energia convergisse para ela deixando-me prestes a desfalecer. E cerrei os olhos com muita força para que,…quando os abrisse, o Medo já tivesse ido embora de vez.
Não sei ao certo quanto tempo assim permaneci. Senti que o sol me tentava tirar do torpor em que havia imergido. Abri os olhos e parecia que o sol queria envolver-me, rompendo através do cedro que estava à minha frente. Até uma leve brisa, mais fresca, desalinhou meus cabelos compridos e louros…
Já não tinha medo.
E naquela tarde de calma do mês de agosto, entre o muito amar e o muito temer…percebi que Alguém maior que o Medo estava ali comigo. Sempre estivera, afinal…



